COP16
1 - O clima é de esperança contida. Quando comparada com a COP15, de Copenhague, Cancun perde de longe na frequência: estima-se que aqui estão 10 mil participantes; na Dinamarca foram 35 mil! Porém não há desânimo nem frustração aparente. A impressão é que Cancun tem mais protagonistas verdadeiramente interessados no tema e menos atores buscando palco. É o que dizem alguns decanos. Ou seja: mais seriedade. Certamente há uma natural "decantação" que é positiva na medida em que reduz as "papiatagens" de ocasião.
2 - A mídia fala em fracasso. Não entendo que haja sintoma de fracasso se considerarmos alguns contextos. Há renovação de lideranças políticas em vários países, dentre eles o Brasil. Por outro lado, a situação econômica difícil por que passam vários países ricos os tornam reféns de ortodoxias econômicas e reticentes quanto a quaisquer mudanças. E a questão do clima - não há como negar isso - envolve políticas de redução de agentes poluidores e, também, a produtividade das indústrias, além de exigir altos investimentos nos processos e controles mais sofisticados e rigorosos, a substituição ou mesmo eliminação do uso de matérias primas tradicionais. O tema por sí mesmo é polêmico e não há consenso quanto ao que fazer e, principalmente, quando. Uma jornada que se prenuncia longa, mas "irretornável". Afinal, convenhamos, a humanidade levou séculos para poluir; poluição que trouxe progressos materiais e mais conforto, saúde e bem-estar. Chaminés soltando fumaças foram durante anos sinônimo de desenvolvimento, desejadas, disputadas e muito bem recebidas pelas comunidades. Mudar essa percepção, esse modelo, é tarefa para alguns bons anos. Querer resultados substanciais imediatos beira a utopia. É preciso mais que paciência para corrigir os danos. É preciso estabelecer primeiramente compromissos para parar de destruir e, depois, reparar os estragos. Daí que falar em fracasso, nesse momento, está fora do tempo.
3 - É estimulante ver toda a humanidade - são quase 200 países -, num mesmo local e em paz, discutindo alternativas para mudanças que serão mandatórias algum dia. O trabalho principal, imagino eu, é desbastar das propostas o que realmente pode ser feito; separar desejo de possibilidade, realidade da imaginação. E desarticular as manobras e armadilhas daqueles que desejam trazer para as discussões argumentos direcionados inteiramente a oportunidades de negócios próprios e específicos. Exemplo: a indústria de alimentos sem uso de defensivos ou modificadores genéticos. É viável ou alternativa comercial oportunista? Não foi uma conquista da humanidade a melhoria conseguida na produção e conservação de alimentos? São os países pobres, ou em desenvolvimento, os que menos poluem. E os que mais sofrem. A agressão avassaladora, perniciosa, mortal, parte dos integrantes do G8 ou de empresas deles oriundas. O grande desafio é encontrar o meio de alavancar a economia a partir de novos métodos e processos que a um só tempo preservem a riqueza construída e alterem o sistema produtivo usando recursos naturais sem abusos; modifique, transforme, mas não destrua. E não esquecer que a maior poluição é a pobreza, a miséria.
4 - Talvez seja o momento de considerar meio-ambiente direitos humanos, como propôs o Presidente do México no discurso de abertura. A COP16 não é um caminho, pois sem ela a discussão se esgotaria. E não haveria a COP17, na África do Sul. Quando todos se encontram ao redor de uma mesa, discutindo formas de alcançar e não mais rumos, certamente o bom resultado virá. A COP 16, insisto, não é um fracasso, mesmo porque conta com minha augusta, relevante e modesta presença.
30/Novembro/2010
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