quinta-feira, 28 de julho de 2011

Utopias

Le temps, vite!
Olho pela janela:
é o trem que anda
ou a vida que passa?

Abandono
Pleno de ausências,
Busco uma utopia:
Alguém que goste
De gostar de mim!

Saudade
A moça do lado
Me olha curiosa
No café da manhã.
Não mais a verei
No café de amanhã!

Solidão
Inseguro pergunto:
"Onde você está?"
"Aqui, ao seu lado,
brincando com
as curiosidades."

Indisponibilidade
Batem à porta:
"Quem é?"
"A Morte!"
"Volte outro dia.
"Agora estou ocupado com a Vida!"

Viagens - Ouro Preto - 2010

Intolerância

Casa dos Contos. Exposição de cópias de imagens sacras feitas com técnica de colagem. Muito apuradas e com preços adequados. O prédio abriga, ainda, mostra de 11 pintores brasileiros sobre o tema Copa do Mundo na África do Sul. Mas o que mais chama minha atenção são as marcas da intolerância gravadas no teto: restos de belas pinturas e alegorias, agora restauradas, que foram cobertas com tinta comum para apagar marcas de um passado não conveniente aos poderosos de então. Arrogância. Será que aprenderemos a lição?

Ouro Preto - Setembro/2010

Viagens - Itália - 2010

Basílica di San Lorenzo

A construção segue o mesmo padrão arquitetônico predominante em Firenze. Também, como outros monumentos, foi reparada por volta do Século XVI. Painéis de Michelangelo por toda parte, embora mais modesta ou menos suntuosa que outras desse porte. A temática central, como sempre, a dor, a tristeza, o infortúnio, a culpa, a salvação. Mensagens seculares lembrando a fragilidade humana e a atávica necessidade de buscar sistematicamente a vida eterna. E a promessa de encontrá-la algures. Ou alhures. Que cosa!

Firenze - Julho/2010

Battistero di San Giovanni

Obra monumental, acompanha a mesma estrutura e desenho do Duomo de Santa Maria di Fiori, conjunto do qual faz parte. A cúpula é totalmente coberta por afrescos onde predomina o dourado como pano de fundo; nela as pinturas repousam e contam histórias do "arco da velha". As figuras são retratadas sem perspectiva, todas "chapadas". Aquí, nesse ambiente, não está presente a tristeza fundamental, a fúria divina, mas a glória desejada e perseguida. Aleluia! Meno male.

Firenze - Julho/2010

Campo dei Miracoli de Pisa


Na praça, logo de início, percebe-se a harmonia do conjunto: Duomo, Battistero, Torre e Campanario. Predominam o granito branco e negro e as formas geométricas duras, de linhas longas e retas, e as curvas do Duomo e da Torre. O complexo tem leveza e elegância. Na Cattredale três magníficos altares disputam a atenção dos visitantes. Nas paredes laterais pinturas do período renascentista descrevem atos de grandeza e conquistas humanas e divinas. O teto é eloquente: totalmente em relevo de mosaicos quadrados, fundo azul-marinho e ouro nos frisos e recortes. Um espanto! A Torre, redonda, toda em mármore branco bem trabalhado, é a instalação onde reinam as curvss. Nenhuma concessão ao ângulo reto. É pena que chame a atenção mais pelo famoso erro de engenharia do que pela exuberante beleza. Interessante como desvio de cálculo estrutural tão primário pode atrair mais que a arte que quase destruiu. Seria a atração pelo desastre tão introjetada no ser humano a ponto de superar o fascínio que exala da obra estável? O que diria disso Leonardo da Vinci, criador das formas perfeitas e mestre das estruturas perenes? Scusa, signore!

Pisa - Julho/2010

Capella Santo Spirito

Mistura de estilos: Renascença, Barroco, Fiorentino. Permanece a opulência e o culto à dor, ao sofrimento, à desesperança, verificado em todas as outras "chiesas". Uma opulência desmesurada para os dias de hoje; o que não foi no contexto dos anos 1000, onde a Miséria e o Infortúnio dominavam? No ar, como sempre, a arrogante promessa de salvação! Salvar de quê... ou do quê... ou de quem? Insanidade. Que paura!

Firenze, Julho/2010

Cappelle Medicee

Uma apoteose! Francamente e propositadamente arrogante no esplendor da riqueza desnecessária e fútil. Pecaminosamente soberba. A composição dos mosaicos em pedras de várias cores, tamanhos e origens, marca toda a construção dando-lhe aspecto elegante e faustoso, ao mesmo tempo que demonstra todo o poder absoluto e imperial da "dinastia". A Sacristia Nuova, no contexto, impressiona pela beleza grandiosa e singela presente na perfeição das obras de Michelangelo, todas em mármore pérola. Um espanto! E come mai?

Firenze - Julho/2010

Chiesa Cattedrale San Martino

Impera o gótico: colunas retangulares e simétricamenre instaladas ao longo da pequena nave. O teto, sem quaisquer pinturas ou afrescos, é composto de pequenos arcos côncavos não alinhados entre si; dão sensação de descuido estético. Puro engano do observador apressado e impaciente. Olhando melhor, percebe-se que a beleza está justamemte nessa não conformidade com o exato, com as formas óbvias e previsíveis. Uma surpresa! Agradável. Mamma mia!

Lucca - Julho/2010

Chiesa di San Marco

Dedicada a Fra Angélico, cuhas pinturas estão por toda parte. Embora o rico dourado em todo o teto da nave central, não aparenta a mesma exuberância encontrada em outras "chiesas" do mesmo porte. A sustentação do teto plano é feita por colunas romanicas, algumas semi-enbutidas nas paredes laterais onde podem ser encontrados arcos que aparentemente têm função meramente decorativa. No altar-mor o principal elemento são as paletas do órgão musical, ricamente encimado por duas grandes esculturas de belas figuras humanas revestidas de dourado. Ouro? Bronze? Pouco importa. O som produzido pelo órgão é impressionante e o fato de se encontrar instalado ao fundo da nave produz sensação acústica extrenamente agradável que preenche todo o ambiente. No altar principal - há dois - nenhuma referência ou alegoria visível ao patrono San Marcos! Na profusão - ou confusão - de estilos, podem ser encontrados tanto delicados anjos Barrocos quanto duros entalhes à Rococó. Uma surpresa! Per la madonna!

Firenze - Julho/2010

Chiesa di Santa Maria Maggiore

Singela, vitrais em tons escuros, predominante o vermelho. Sensação de acolhimento, talvez resultado da luz tímida e difusa. O interior aparenta estar sempre na sombra. As paredes são inteiramente revestidas com pinturas chapadas, cores pastéis. Os afrescos e alegorias em tons cinza-pálido. O altar-mor não tem qualquer imagem, mas grandes e grossos tubos de imenso órgão em quase toda sua extensão. O lado externo não possui acabamento sofisticado; permaneceu nos tijolos. Tudo muito sóbrio, simples, beirando o recato. Uma emanente suavidade. Eppur si muove!

Firenze - Julho/2010

Chiesa San Miniato al Monte

Erguida no início do século XI sobre um dos pontos mais elevados da cidade, cercada por um bosque bem cuidado, apresenta estilo semelhante às "chiesas" de Siena: predomínio dos granitos verdes, negros e brancos. A cobertura, porém, surpreende pelo formato triangular característico dos monumentos gregos, embora seja uma construção românica. Intriga por que não foi utilizada a técnica baseada em arcos desenvolvida em Roma, bem mais compatível com o período de seu projeto. Ideologia? As sustentações são em colunas misto de jônico e românico encimadas por arcos para distribuir a demanda estrutural. Nas paredes laterais vêem-se pinturas onde as imagens são lisas e sem perspectiva, com predominância de cores pastéis, embora no altar principal o ouro apareça com generosidade. Os frisos nas paredes e suportes do altar-mor são formados de pequenos mosaicos que remetem aos desenhos dos azulejos portugueses. Essa composição cria ambiente de menor opulência. E tristeza. Dove ché la uscita?

Firenze - Julho/2010

Museo delll'Opera del Duomo

Arte sacra, riquissima, bem conservada e exposta de maneira singela. Parece que houve intenção de disfarçar a exuberância das pinturas, todas compostas com profusão de filetes e finissimos assoalhos de ouro. Esse arranjo, intencional ou não, confere ao conjunto ar de elegância e mistério. Não há sinais evidentes de arrogância na riqueza. Ao contrário, constrangimento ou timidez em expô-la. Já é alguma coisa. Grazie mille.

Siena - Julho/2010

Battistero di San Giovanni

Integra o conjunto da Cattedrale, dele, portanto, não diferindo. Chama a atenção o teto bem estruturado, em formato de cúpula, todo coberto de afrescos com predominância do azul profundo e dourado brilhante. Pure...

Siena - Julho/2910

Cattedrale Santa Maria della Scala

Impressiona a harmonia. Tanto os revestimentos externos quanto os internos possuem características semelhantes. O cuidado com os detalhes pode ser encontrado por toda parte. É o ponto forte. As colunas listradas em granito negro e branco refletem o desenho básico que permeia as instalações de grande porte. O piso da nave central é também obra de arte que não ficou relegada a plano inferior nem descuidada. Chega a ser constrangedor caminhar sobre ele; há meia dúzia de mosaicos que poderiam estar enriquecendo qualquer parede. Do lado externo, quebrando a monotonia do que poderia ser a imposição marcante da estética do negro e branco, encontram-se longos frisos de granito rosa pálido, adereços de extremo bom-gosto que personalizam o najestoso conjunto. Comme prima, anque píu bella.

Siena - Julho/2010

St Marks English Church

Pequena Capella Anglicana cujo interior apresenta teto composto unicamente pelos arcos que ligam as grossas colunas retangulares. As alegorias, símbolos e ícones, comuns em templos religiosos, são mínimos, quase ausentes. A pequena distância entre as colunas e a baixa altura do vão compreendido entre o piso e o teto cria ambiente de corredor e porão na nave principal, que tem ao fundo pequeno e singelo balcão à guisa de altar. A sensação inicial tangencia o desconforto mais que a paz e a intimidade talvez pretendida pelo projetista. Há uma beleza bruta e agressiva que não facilita nem a introspecção nem o recolhimento nem a reflexão. Isso, mais que outros detalhes, a diferencia das demais "chiesas" de Firenze. Cosa facciamo?

Firenze - Julho/2010

Viagens - Buenos Aires - 2011

Buenos Aires

Sol a pino! Muito calor. Nenhuma dor. Acho que fiquei livre de mais uma pedra em meu caminho. Pior do que ela mesma era sua constante ameaça. Lembrei-me de Sun Tzu: a perspectiva do ataque é mais danoso que a própria guerra. A agonia da ameaça acabou. Dessa. Pelo menos por enquanto! Todavia.

27/12/2010 - Segunda-feira

Nos anos 40 e 50 Buenos Aires era uma metrópole esplêndida. Nota-se pela riqueza que transcende das magníficas construções no centro da cidade. Florida, Maipu, Belgrano, San Martin, Mayo, Corrientes. Calles onde o bom gosto arquitetônico remete ao fausto do Velho Continente. Razão suficiente para o orgulho visível dos portenhos. Eles merecem. Que venga Gardel!

28/12/2010 - Terça-feira

Na manhã ensolarada travessia do Rio dela Plata, verdadeiro mar de água doce. No confortável Buquebus para Colônia del Sacramento, Uruguay, o clima era de festa. No pier, tour pelas ruínas da Plaza de Toros. O Centro Histórico lembra Trancoso. A modesta igreja principal pobre, como de resto a cidade que parece começar a ressurgir nas construções das casas de praia recém-inauguradas e nas restaurações em andamento. O altar coberto de ouro falso, o piso machetado falso. De volta ao embarcadouro, no táxi a surpresa pela nota falsa de 50 pesos. A fome e o constrangimento verdadeiros. Pero non mucho.

29/12/2010 - Quarta-feira

Mañana en Madero. De nuevo. Felizmente. Después um pulo até Recoleta. Convivendo com os muros encardidos do cemitério de famosos, las tiendas de grife, as artes do design, os bares charmosos. Después, o taxista simpático, a tarde preguiçosa e bela. Direción? Mi Puerto Madero.

30/12/2010 - Quinta-feira

Santelmo. Lugar para turistas desavisados ou de primeira viagem. Nada especial. Tiendas de antiguidades que elas mesmo fazem por merecer o próprio nome. Casas de comidas típicas iguais a de qualquer canto: simples e servidas sem cuidados. Resta aguardar el nuevo año una vez más. Mujer, que quieres comigo hablar? Milongas.

31/12/2010 - Sexta-feira

Puerto Madero em tarde muy hermosa. Quase deserto. Brisa generosa soprando em todas direções, céu azul-claro sem nuvens, sol brilhante, mente limpa, coração em paz. Não há preparação visível para os festejos de Ano Novo. A cidade está calma, tranquila e sem agitação. Final de ano comme il fault. Gracias.

01/01/2011 - Sábado

Manhã linda, céu limpo e transparente. Caminhada por Madero mirando para o nada. Después, Palermo. Contraste: Palermo Viejo não é mais o que já fôra. Praça descuidada, ruas vazias e tristeza pairando em cada esquina. Nem turistas se arriscam visitá-lo neste início de tarde esplendorosa do Domingo inaugural de 2011. Adonde estás ahora mi Buenos Aires querida? Só a encontro em Madero? À noite, serenidade para aguardar com paciência a hora da partida ao som de Vivaldi. Poderia haver algo mejor? La noche que mi quieras...

02/01/2011 - Domingo

Dia de retornar. Uma das vantagens das viagens é o prazer da volta para casa. Sensação de alegria maior que a vinda, pois que isenta da ansiedade pelo desconhecido. Prazer garantido. Sem sobressaltos. Doce ilusão. Em São Paulo o desconforto não previsto: vôo cancelado, passageiros agitados, tripulação assustada. Chuva, táxi, hotel na madrugada, noite/madrugada não dormida. Pela manhã, quando já deveria estar acordando em meu travesseiro, tornei rumo ao aeroporto para nova tentativa de embarque. Já estou necessitando de uma semana em Buenos Aires para eliminar o estresse que havia ido embora. Hasta la vista!

03/01/2011 - Segunda-feira

Querida e hermosa ciudad de Belo Horizonte! Buenos días!

Viagens - Cancún 4 - 2010

Mayakoba

Mirar
O mar
Amar

Sentir
Ouvir
Sorrir

Falar
Gostar
Calar

Vagar
Deixar
Voar

A cor
Decór
Do amor

Querer
O ser
Prender

01/Dezembro/2010

Viagens - Cancún 3 - 2010

COP16

1 - O clima é de esperança contida. Quando comparada com a COP15, de Copenhague, Cancun perde de longe na frequência: estima-se que aqui estão 10 mil participantes; na Dinamarca foram 35 mil! Porém não há desânimo nem frustração aparente. A impressão é que Cancun tem mais protagonistas verdadeiramente interessados no tema e menos atores buscando palco. É o que dizem alguns decanos. Ou seja: mais seriedade. Certamente há uma natural "decantação" que é positiva na medida em que reduz as "papiatagens" de ocasião.

2 - A mídia fala em fracasso. Não entendo que haja sintoma de fracasso se considerarmos alguns contextos. Há renovação de lideranças políticas em vários países, dentre eles o Brasil. Por outro lado, a situação econômica difícil por que passam vários países ricos os tornam reféns de ortodoxias econômicas e reticentes quanto a quaisquer mudanças. E a questão do clima - não há como negar isso - envolve políticas de redução de agentes poluidores e, também, a produtividade das indústrias, além de exigir altos investimentos nos processos e controles mais sofisticados e rigorosos, a substituição ou mesmo eliminação do uso de matérias primas tradicionais. O tema por sí mesmo é polêmico e não há consenso quanto ao que fazer e, principalmente, quando. Uma jornada que se prenuncia longa, mas "irretornável". Afinal, convenhamos, a humanidade levou séculos para poluir; poluição que trouxe progressos materiais e mais conforto, saúde e bem-estar. Chaminés soltando fumaças foram durante anos sinônimo de desenvolvimento, desejadas, disputadas e muito bem recebidas pelas comunidades. Mudar essa percepção, esse modelo, é tarefa para alguns bons anos. Querer resultados substanciais imediatos beira a utopia. É preciso mais que paciência para corrigir os danos. É preciso estabelecer primeiramente compromissos para parar de destruir e, depois, reparar os estragos. Daí que falar em fracasso, nesse momento, está fora do tempo.

3 - É estimulante ver toda a humanidade - são quase 200 países -, num mesmo local e em paz, discutindo alternativas para mudanças que serão mandatórias algum dia. O trabalho principal, imagino eu, é desbastar das propostas o que realmente pode ser feito; separar desejo de possibilidade, realidade da imaginação. E desarticular as manobras e armadilhas daqueles que desejam trazer para as discussões argumentos direcionados inteiramente a oportunidades de negócios próprios e específicos. Exemplo: a indústria de alimentos sem uso de defensivos ou modificadores genéticos. É viável ou alternativa comercial oportunista? Não foi uma conquista da humanidade a melhoria conseguida na produção e conservação de alimentos? São os países pobres, ou em desenvolvimento, os que menos poluem. E os que mais sofrem. A agressão avassaladora, perniciosa, mortal, parte dos integrantes do G8 ou de empresas deles oriundas. O grande desafio é encontrar o meio de alavancar a economia a partir de novos métodos e processos que a um só tempo preservem a riqueza construída e alterem o sistema produtivo usando recursos naturais sem abusos; modifique, transforme, mas não destrua. E não esquecer que a maior poluição é a pobreza, a miséria.

4 - Talvez seja o momento de considerar meio-ambiente direitos humanos, como propôs o Presidente do México no discurso de abertura. A COP16 não é um caminho, pois sem ela a discussão se esgotaria. E não haveria a COP17, na África do Sul. Quando todos se encontram ao redor de uma mesa, discutindo formas de alcançar e não mais rumos, certamente o bom resultado virá. A COP 16, insisto, não é um fracasso, mesmo porque conta com minha augusta, relevante e modesta presença.

30/Novembro/2010

Viagens - Cancún 2 - 2010

COP16

O clima é nitidamente de boa vontade. Tempo de gentilezas. Duzentos países. Amarelos, brancos, índios, negros (êpa! afrodescendentes!). Não importa, agora somos todos verdes. Várias tribos: coloridas, pálidas, próximas, distantes. Vestes extravagantes, singelas; nem de longe sofisticação. Algazarra. Sons estranhos no ambiente sem regras, régua e compasso, como numa orquestra afinando instrumentos simultâneamente antes de iniciar o espetáculo. Os léxicos se encontram numa Babel de palavras, expressões e gestos buscando linguagem comum. Planta-se semente para mudar a lógica do desenvolvimento econômico. Nesse mosaico de seres, cores e idéias construímos nossa esperança de salvação. Enfim, descobrimos que estamos todos na mesma arca..., não é? Em Cancún a fauna aflora!

29/11/2010

Viagens - Cancún 1 - 2010

Aeroporto

Compre! Compre! Compre! Compre! Compre! Compre!...
Espere não.
Compre! Compre! Compre! Compre! Compre!...
Pouco é vão.
Compre! Compre! Compre! Compre!...
Use o cartão.
Compre! Compre! Compre!...
Que sensação.
Compre! Compre!...
É o coração.
Compre!...
Preciso não.

Perfumes


Quando o grande avião abriu as portas e comecei a descer no Aeroporto de Cancún, senti um cheiro diferente, característico, agradável, único. Procurei na memória qualquer indício de acontecimento relacionado a ele. Não encontrei. Era perfume novo.

Tenho relacionamento antigo, uma história com os perfumes. Certos cheiros lembram fatos e remetem a momentos marcantes em minha vida. Para muitas pessoas as imagens é que ficam gravadas na memória e lhes trazem recordações. Comigo isso ocorre principalmente com o sentido do olfato. O cheiro de maçã me retorna imediatamente à infância. Transporta-me aos Natais. Uma viagem sentimental à querida Pitangui.

Meu pai ia a Belo Horizonte para as compras e na volta trazia brinquedos para distribuir na manhã de Natal. E uma manzana argentina para cada filho. Grande, vermelha, envolta em papel cinza-azulado. Eu ficava alguns dias olhando e cheirando aquela fruta mágica. Buscando prolongar a fantasia do Natal. Quando a comia dias depois, saboreando com olhos, boca e nariz, lá pelo Ano Novo, o fazia devagarinho, em atitude respeitosa, carinhosa, como num ritual. Depois, terminada aquela verdadeira adoração, restava ficar sonhando nos meses seguintes durante a espera pelo novo Natal. Eu gostava de conservar aquele aroma e não o deixava ir embora.

Natal tem cheiro de maçã argentina. E as maçãs argentinas, onde quer que as encontre, devolvem o Natal para mim.

Em Cancún senti um novo cheiro. Único. Inconfundível. Que só encontrarei novamente aqui. Cheiro da saudade. Saudade do que não aconteceu.

Cancún, México - Novembro/2010

Viagens - Panamá 2 - 2010

Eglisia de San José

Havia uma igreja no meio da praça.
Muro!
Na igreja altar de ouro.
Puro!
Mendigos rogavam pão.
Duro!
Na igreja somente oração.
Curo!
Havia festa no meio da praça.
Juro!

Igreja.
Muro!
Ouro.
Puro!
Pão.
Duro!
Oração.
Curo!
Festa.
Juro!

Plaza Mayor

O nome nada tem a ver com a dimensão do local. La plaza es chiquitita. É também conhecida como Plaza Catedral ou ainda Plaza Independencia. No meio, um coreto cercado de jardins com pequenos bancos de madeira espalhados ao redor. Num dos lados encontra-se o Museo del Canal Interoceanico, muito bem montado, recentemente reformado e rico em histórias, das quais os panamenhos muito se orgulham. O Canal, que um dia foi francês, e depois norte-americano, recentemente, no governo de Jimmy Carter e de Omar Torrijos, voltou definitivamente ao controle soberano do Panamá, país que já pertenceu à Espanha e depois à Colômbia, da qual se separou no início do século XX. Quanta luta! O acordo para a retomada do Canal foi uma vitória que demandou longas negociações muito duras, corrupções de lado a lado, traições, ameaças de guerra, terrorismo e invasões. Um acordo inédito - sem condições - com apoio da comunidade internacional, devolveu o Canal a quem lhe empresta o nome. Mais que um bom negócio, é um símbolo nacional.

Em outro lado da Plaza, vê-se a Catedral Metropolitana de San Felipe. Arquitetura mista: espanhola nas duas torres laterais, que sobem desde o chão; no meio da fachada principal, mais baixa que as torres, três grandes pórticos com traços que remetem aos desenhos típicos encontrados nas "Molas Kuna", feitos por mulheres que habitam as Islas de San Blas, conhecidas como Kuna Yala. Kuna é um povo ameríndio que habita também a Colômbia. A palavra "mola" significa vestido ou blusa em Tule Gaya, o idioma dos Kunas. É uma peça de arte em tecido, intrincadamente desenhada e costurada a mão, e serve para embelezar vestidos. A Catedral, rica por fora, é muito pobre por dentro. Parece que não houve tempo para caprichar no interior. As aparências enganam! Melhor orar no coreto da praça.

Ao redor, nos quarteirões próximos, várias ruínas - bem conservadas! - de construções pré-hispânicas. Pode-se encontrar também a marca da forte presença francesa em algumas pequenas praças e vielas. Está em curso a implantação de projeto para reconstrução de toda a área denominada Panamá Viejo. Algumas edificações já foram restauradas. As instalações da burocracia governamental já estão prontas. Meu pirão primeiro!

Panamá - 27/Novembro/2010

Viagens - Panamá 1- 2010

Miraflores

Impressionante! Este o adjetivo para tentar exprimir a sensação que tive ao ver as manobras finais, complexas, perfeitas e cuidadosas, na eclusa de Miraflores, para a transferência de 2 gigantescos cargueiros vindos do Oceano Pacífico em direção ao Atlântico/Caribe. São 80 quilômetros de Canal. A travessia dura cerca de 12 horas e o tráfego comporta 35 navios/dia. No percurso há 3 "subidas" e 3 "descidas". Mão única, pela manhã funciona no sentido Atlântico/Caribe para o Pacífico; à tarde, o contrário. Cada barco paga US$ 190.000 pela travessia que somente pode ser realizada com a supervisão de prático com cidadania panamenha. Parece elevado o valor, mas caso não fosse utilizado o Canal do Panamá esse trajeto teria que ser feito pelo sul da Argentina: 30 dias! Faço o cálculo rapidamente: 3 bilhões de dólares anuais recolhidos aos cofres do governo. Como a população é de aproximadamnte 3 milhões de habitantes... US$ 1.000 per capita somente com essa renda. Em 2014 ficará concluída a obra do novo canal: aí esse valor poderá ser multiplicado por até 3 vezes. Mas o que realmente me surpreendeu foi a grandiosidade dessa obra, concluída em 1914 após 10 anos de trabalho duríssimo. Os volumes são incríveis, ciclópicos. Tudo é superlativo. Até mesmo a morte de 25.000 trabalhadores atingidos em sua maioria pela febre amarela. Esse detalhe ficou "esquecido" nos folhetos ufanistas dirigidos aos turistas. Pena que tragédias humanas desse porte tenham tão pouca repercussão. Quando muito, a história trata seus protagonistas como heróis. Anônimos. E lhes dedica uma placa comemorativa. Genérica. De eterna gratidão. Aleluia!

Albrook Mall

Lewis, Panasonic, Prada, KFC, Sony, Calvin Klein, Mc Donalds, Praça de Alimentação, cinemas, ATM, brincadeiras infantis, guardas de segurança, temperatura controlada, limpeza, escadas rolantes, luzes-câmeras-ação. BH Shopping? Diamond Mall? O mundo ficou igual. Aceitam-se todos os cartões de crédito. The show must go on!

Casco Viejo

É a "atração" da cidade. Ruas estreitas, tráfego complicado, pequenos comércios, bares, restaurantes tradicionais, comidas típicas, artigos para turistas, casarões antigos. E velhos. Descuidados. Lembrei-me do Pelourinho, La Boca, Lapa, Brás, Olinda. Do Marché de Pulpes. Casco Viejo é diferente em tudo da bela, limpíssima e moderna Ciudad de Panamá, citada com justo orgulho pela Comissária de Bordo - ainda no ar -, com referendo do primeiro taxista no aeroporto. E de todos os demais. Em Casco ví policiais fortemente armados nas esquinas; na Ciudad nenhum. Nem para exemplo. Em ambos os locais me senti tranqüilo. A presença ou a ausência ostensiva da polícia é sinal de segurança. Estranho, não? Carpe diem.

26/Dezembro/2010

Reflexões - Um moço chamado Toninho - 2002

Um moço chamado Toninho

Lindolfo: mesmo com o risco de parecer piegas, faço este relato para registrar um acontecimento que presenciei há cerca de 45 anos. Expressá-lo agora não deixa de ser uma catarse para mim. Permito-me abusar do caro amigo fazendo-o meu depositário dessa "revelação". Desculpe-me: é para não ficar perdido em minha memória, cada dia mais descuidada.

O episódio ocorreu em torno do ano de 1957 - por aí - em minha Velha Serrana, Pitangui, em frente ao Ginásio Estadual Monsenhor Arthur de Oliveira.

Havia um porteiro da escola, Seu Antônio, que quase todos os alunos insistiam em chamar pelo apelido de Sambém, que ele detestava. Pessoa muito simples, bondosa, de poucas posses, muitos filhos, vivia em constantes dificuldades.

Num certo dia pela manhã, antes do início das aulas, lá pelas sete horas, ao chegar à portaria deparei-me com um tumulto. Uma roda de alunos uniformizados "à la Polícia Militar" e, no centro, Seu Antônio, o Sambém, e um padeiro da cidade que aos gritos lhe cobrava débito pelo fornecimento de pães. Parte dos alunos se divertia como o espetáculo e com a desdita - tornada pública - de Seu Antônio, o Sambém; outros, como eu, a tudo assistiam com curiosidade e certa indiferença pelo vexame público a que estava sendo exposto o infeliz devedor.

Aos gritos, alguns até incentivavam a refrega que estava por vir. Ânimos exaltados, ambos os dois protagonistas daquele espetáculo nada exemplar, discutiam com veemência, não faltando palavras nada edificantes por parte do cobrador, além de ameaças físicas contra o devedor. O clima não estava nada bom... e foi piorando. Num dado momento, porém, surgiu por entre os estudantes, um moço magro, alto, de nome Toninho. Desvencilhou-se dos colegas com ímpeto e assumiu a defesa de Seu Antônio, o Sambém, dizendo ao cobrador que não admitia que ele agisse daquela forma, humilhando o pobre devedor, principalmente diante dos alunos e em seu local de trabalho. Tão veemente e fulminante com suas palavras e argumentações, que polarizou a atenção e conquistou o apoio de toda a ruidosa platéia que, como num passe de mágica, passou então a exigir o fim do triste espetáculo aos gritos de "fora, fora" dirigidos ao cobrador impertinente, embora legítimo credor.

Depois, ainda aproveitando a emoção do momento, o moço Toninho fez uma convocação geral em prol de uma "vaquinha" para liquidar o débito de Seu Antônio, o Sambém, resgatando-o porque era devido, mas de forma civilizada.

O que esta história tem de especial? É que dela nunca me esqueci. Para mim foi uma lição, um aprendizado. Foi a primeira vez que assisti na prática o poder da palavra superar argumentos de força. E o recado de que há limites de respeito humano que devem prevalecer sobre nossas ações, por mais legítimas que possam ser.

Por anos acompanhei a trajetória do moço Toninho, através de notícias bissextas em jornais, e mais recentemente em seus artigos regulares onde, vez por outra, surge novamente aquele moço de Pitangui, bravo, insistente, inconformado com privilégios, crente na justiça, propondo corajosamente alternativas para reformas sociais, não ficando indiferente mesmo na tranqüilidade de confortos e prazeres corporativos, antes contra eles se rebelando e se indignando.

Como diria Nelson Rodrigues: mas o que mesmo eu queria lhe dizer? Por que lhe escrevo isto? Pelo inusitado da coincidência de em nosso encontro no restaurante do Minas I você ter citado um colega de turma, Advogado, Professor e Juiz, que certa vez tomara para si a defesa de interesses de garçons que estavam sendo injustiçados. Contei-lhe um caso semelhante, e... viva! tratava-se da mesma pessoa! E você me disse na ocasião: "ele sempre foi assim, meio diferente". Fiquei alegre por isso: saber que há pessoas que não abdicam de determinados princípios e têm comportamentos que não se alteram com o passar dos anos.

Confesso que cheguei a desejar que fosse outro o seu personagem, pois assim teríamos mais um com este mesmo espírito.

Compromissos com certas atitudes podem nos acompanhar pelo resto de nossas vidas e têm extraordinário valor, principalmente quando em função de nossa posição social podemos agir de modo mais efetivo para facilitar ou minorar o sofrimento de pessoas que têm pouco ou nenhum acesso aos mecanismos complexos, complicados e custosos da justiça.

Às vezes, em momentos de dúvidas e fraquezas e descrenças e desalento e desesperança, quando duvidar da justiça é o mais óbvio e natural, recorro-me ao exemplo do moço Toninho, lá da velha Pitangui, que continua mantendo uma convicção muito forte de que é possível continuar plantando por aí sementes de coragem, retidão e justiça, valorizando pessoas e não coisas, gestos e não palavras, coragem e não tibieza, ação e não retórica. E que continuar acreditando na transformação da nossa Justiça não é utopia, mas sonho realizável.

A propósito, o moço Toninho, mais precisamente Toninho do Doutor Jacinto, sempre tratou Seu Antônio, o Sambém, respeitosamente de Senhor Antônio. Pois é: o moço já era "diferente" naquela época.

Com um abraço,

Epiphânio.

Agosto/2002

Reflexões - Sebastião Márcio - 2002

Sebastião Márcio, andorinha só

"A vida tão breve, tão pouco tempo para aprender (Geoffrey Chaucer)"
"Nenhuma explicação é suficiente (Karl Popper)"


Levado pelas mãos de Sálua Nazar, em meu primeiro dia de Escola, na Classe Anexa do Ginásio Escola Normal Estadual de Pitangui, início do ano de 1950, vi no meio de várias crianças e adultos um menino que se destacava dos demais pelo tamanho e andar meio desajeitado. Era Sebastião Márcio Severino, pessoa que viria a conhecer mais profundamente do que poderia imaginar naquele momento.

Pouco depois, passados os primeiros momentos de uma algazarra inicial nas filas indianas formadas no pátio, percebi que ele era o maior de todos do grupo e eu o menor. Na sala de aula as crianças de menor tamanho ocuparam as carteiras da frente, as maiores as do fundo, todos sentados em duplas. Ao meu lado a mais baixinha, Maria José da Silva, e bem atrás os mais altos: ao lado de Márcio, a Aurinha - Áurea Stela.

No recreio, primeiro intervalo, curiosos nos aproximamos uns dos outros para conversar, ver a merenda de cada um, indagar sobre interesses, nomes, preferências, qualquer coisa assim. De início, eu imaginava que estaria protegido ao lado de um companheiro bem mais forte do que os demais. Ou, pelo menos, não sendo inimigo dele. Talvez tenha sido este meu primeiro e pragmático interesse em me aproximar do Márcio. Mas a primeira grande lição que recebi foi: forma e conteúdo nem sempre se correspondem. Com o tempo, percebi meu engano: aquele grande menino seria para sempre um menino grande, incapaz de atos e gestos de mínima violência ou rebeldia.

A partir daí nos tornamos amigos inseparáveis. Confidentes, estudávamos, brincávamos e sonhávamos juntos. De vez em quando, à tarde, eu ia à casa dele, que ficava perto da Escola, para fazermos juntos os nossos deveres. Eu prestava atenção - com alguma inveja - na letra redonda e bonita que Márcio fazia, língua para fora no canto da boca, a demonstrar o esforço do ato de desenhar as primeiras letras, dedos firmes no lápis número dois. Sua mãe, Dona Carminha, sob os olhares silenciosos, atentos e curiosos de Seu Zé Ieié, preparava um mingau de fubá mimoso com pedaços de queijo para nosso lanche e nos aconselhava sobre a necessidade de estudar bastante, ler muito, procurar ter amigos sinceros, respeitar a todos. Essas conversas de mãe.

Era freqüente deixarmos de lado os cadernos e livros para ir à casa de Nego da Fonsina, vizinho de Márcio, para ouvir uma roda de viola entremeada de boa prosa. Foi lá, junto àquela gente simples e muito boa, que aprendi lições que a Escola não ensinava.

Márcio era sensível, bom filho, carinhoso com os pais, afetuoso, amoroso, gentil com os companheiros. De boa paz. Sempre disponível para ajudar. Lembro-me do dia em que uma mulher, que vendia bala puxa-puxa na porta da Escola, não apareceu para trabalhar. Márcio foi até à casa dela e verificou que estava adoentada. Pegou o tabuleiro com os doces e foi vender durante o recreio. Chamado à atenção sobre a proibição de venda, o que lhe pareceu muito injusto, dada a finalidade, desmanchou-se em lágrimas. Não entendia desses cânones. Como me parece que não entenderia pela vida afora.

Chorar copiosamente fazia parte de seu dia-a-dia. Ora o fazia com os grandes olhos negros, ora com o imenso coração, em pudico silêncio e com dor maior. Desmanchava-se em lágrimas por qualquer coisa. Mas também ria muito. Ria de tudo. Apaixonava-se por todas as meninas, fazia-lhes a corte, bolava presentes, sonhava acordado. Bastava um cumprimento em tom diferente do habitual, um pequeno sorriso, para ele me confidenciar que acabara de ficar eterna e definitivamente apaixonado. No dia seguinte contava-me os sonhos que tivera, mostrava alguns versos, um soneto, acróstico com o nome da eleita, que iria entregar para a nova amada tão logo houvesse oportunidade. Não correspondido, sofria calado até que novo amor eterno lhe sorrisse. E adaptava o acróstico. Uma vez me disse, sério e entusiasmado, que sua nova paixão tinha uma vantagem a mais: parte do nome coincidia com o do amor que fugira, tornando mais simples a adaptação do poema.

E assim seguiu a vida naqueles mágicos quatro anos de incríveis descobertas, cumplicidades e mútuos aprendizados. Após a nossa formatura ainda fomos colegas por algum tempo no Ginásio. Mas as novas companhias, o trabalho e as circunstâncias nos separaram fisicamente.

Dele tinha cada vez menos notícias. Encontramo-nos algumas poucas vezes, quando também se mudou para Belo Horizonte. Nas ocasiões em que nos víamos parecia que o tempo não havia passado. Começávamos o papo como se nossos encontros fossem diários. Um simples "oi" e a conversa fluía. Ao final, um tapinha nas costas e um "até logo". Um "logo" que poderia durar anos, uma década.

Quando tive meu primeiro filho parece-me que ele estava morando no estado de São Paulo, não me lembro bem. Soube do nascimento e me enviou um bilhete carinhoso, que guardo comigo até hoje, desejando uma vida bem feliz para o "bengalinha". Bengala era o apelido pelo qual me chamava na infância. Não sei de onde tirou isso nem jamais perguntei.

Há alguns anos me procurou. Não nos víamos há bastante tempo. Estava cansado, semblante assustado, olhar tristonho que tentava, mas não conseguia disfarçar. Falou-me um pouco de sua vida. Entremeou o relato com algumas invencionices, misturou sonhos com realidade. Nenhuma reclamação, nenhuma mágoa nem ressentimentos. Mas era evidente que estava em dificuldades.

Bastante constrangido, tentou vender-me um consórcio ou seguro ou cota de clube, sei lá. Algo assim. Era sua atividade em busca de algum dinheiro para seu sustento. Não me interessei pela oferta e com alguma cumplicidade e cautela mudamos de assunto. Falamos sobre ex-colegas da Classe Anexa: Cecília, Soninha, Zenaide, Arésio, Jésus, Aurinha, das Maria José (de Freitas e da Silva), de Dona Maria Lopes, Dona Iolanda, Seu Antônio Sambém, Dona Nhanhá, Dona Teotista, Seu Chiquinho. Pessoas queridas.

Relembramos nossos primeiros amores e paixões primárias. Contou-me sobre a vida de cada um dos nossos colegas, onde estavam, o que faziam. Para todos uma palavra carinhosa, de admiração, de amizade que talvez não privasse mais. Entremeado por longos silêncios, ficamos a lembrar de histórias, apelidos e fatos dos quais rimos muito. Mencionava nossos colegas de infância como se o tempo houvesse paralisado naqueles anos da Escola Normal. Com intimidade que não percebera já perdida.

Nada me pediu.

Num determinado momento, com muito cuidado lhe ofereci alguma ajuda, um adiantamento sobre suas vendas futuras. Agradeceu mas não quis. Insisti. Então, com os grandes olhos negros meio úmidos, cabeça ligeiramente inclinada, relutante aceitou. Perguntei qual poderia ser o valor mais adequado. Imaginei determinada quantia que julgava razoável naquele instante. Para minha surpresa sugeriu qualquer coisa dez vezes menor. Disse-lhe que poderia ceder um pouco mais e ele então me ofereceu um documento como garantia, que não aceitei. Falei que estava fazendo um depósito em confiança, como se fora num Banco qualquer. Se precisasse, avisaria com antecedência para fazer a retirada.

Tomamos um café, olhamos a cidade pela janela, falamos qualquer coisa sobre o trânsito, as pessoas, a chuva. Com muito para conversar, mas naquele momento meio sem assunto, perguntei se sabia onde poderia conseguir amoras, daquelas que colhíamos na Escola. Prometeu encontrar e trazer para mim em sua próxima visita.

Ficamos algum tempo em silêncio, muito a dizer, nada para falar. E nos despedimos tal qual na Classe Anexa, como se fôssemos nos encontrar novamente logo no dia seguinte, à hora do recreio.

Não sei que caminhos seguiu, que vida levou, o que lhe faltou, por onde andou. Nem me altera saber agora. Márcio sempre foi para mim uma referência de bom menino, bom coração, que teimosamente decidiu ampliar os muros de nossa Escola, não percebendo, talvez, que aqui fora a vida ainda não estava preparada para receber pessoas como ele.

Não nos vimos mais. Nem mais nos veremos.

Márcio, o menino grande, meio passarinho, foi antes. Muito antes. Há dois dias. E levou junto um pouco de mim.

Belo Horizonte, 21/01/2002

Viagens - Malmö, Suécia - 1991

Sønja

Malmö. Estou no centro histórico. Desço pela Avenida Hjälmaregatan, atravesso uma pequena ponte e sigo em direção à Praça Lilla Torg. Na terceira esquina entro na Rua Södergatan. Próximo a um cruzamento com pequena ruela vejo alguns bares e restaurantes com mesas no passeio estreito. Escolho um. Critério? O que tenha mais clientes com aparência de aborígenes. Não quero refeição para turista. Nome estranho: Mando Bar.

Entro, localizo mesa vazia, busco a atenção da garçonete e faço um sinal com o polegar solicitando permissão para ocupar lugar junto à janela frontal. Devidamente autorizado abro o cardápio todo escrito em língua que não conheço e "leio" duas ou três páginas de cima a baixo apreciando com curiosidade aqueles aglomerados de letras, consoantes acentuadas, vogais cortadas, sinais esquisitos e palavras impronunciáveis.

A garçonete, Sønja, louríssima, vinte e poucos anos, se aproxima rapidamente, aponta para o cardápio e começa a falar. Faz uma pergunta. Respondo com "hamham" firme e convincente. Ela prossegue, toma o cardápio de minhas mãos e coloca sobre uma das páginas o dedo finíssimo de unhas longas bem cuidadas pintadas de azul brilhante apontando quatro ou cinco itens. Olho-a curioso fingindo naturalidade.

Percorro sua figura com os olhos cuidando evitar parecer intruso e agressivo. Cabelos penteados maria-chiquinha, rabo-de-cavalo e franja desalinhada sobre a testa branca e lisa. Magra, pescoço longo, boca nua e bem desenhada, rosto pequeno, nariz afilado. Parecia uma delicada e frágil boneca de louça. Embora a pouca estatura o conjunto dava impressão de ser alta e esguia. Uma bela ilusão de óptica!

Presto muita atenção em seus lábios levemente rosados e no que ela diz, na melodia agradável e incompreensível das palavras pronunciadas com voz suave, mas firme.

Compareço ao "diálogo" com mais dois ou três "hamham" e faço sinais de aprovação com alguns sutis acenos de cabeça. Percebo uma beleza inusitada no jeito decorado que ela tem de dizer aqueles sons, no contorcionismo dos lábios, no revirar dos olhos azuis-turquesa ora mirando o cardápio ora fitando o teto, burocraticamente balançando com naturalidade a cabeça para os lados, encolhendo levemente os ombros como que em busca de impor mais credibilidade ao que fala.

Pergunta algo novamente e como exito responder me olha firme, entre curiosa e severa. Respondo em inglês que não havia entendido nada do que dissera pois nem sabia com certeza que língua falava, embora suspeitasse sueco.

Surpresa, por alguns segundos muito séria, depois encabulada, sorri e pergunta: você não é sueco? de onde é? que língua fala? Brasil? então fala espanhol? Digo que sim embora o idioma brasileiro seja o português. Ela sorri novamente e explica que infelizmente alguns pratos não estão sendo servidos naquela tarde e coisa e tal.

Faço o pedido e "la nave va".

Terminada a refeição, café, conta, cartão de crédito, sem mais palavras me levanto e, já quase na porta de saída, percebo que ela me acompanha de longe. Agradeço com um pequeno gesto à guisa de adeus. Ela dá tchauzinho, faz sinal de OK com o polegar e segue em frente com a bandeja.

Vou-me embora. Dalí sei que para sempre.

Já na rua, chuvisco fino, caminhando sobre o passeio estreito e desviando de pequenas poças d'água começo a sorrir comigo e para mim mesmo ao descobrir que em Malmö, numa tarde de certo dia no mês maio, por alguns instantes fui fluente no idioma sueco.

Malmö, Suécia - Maio/1991

Vamos lá!