quinta-feira, 28 de julho de 2011

Reflexões - Sebastião Márcio - 2002

Sebastião Márcio, andorinha só

"A vida tão breve, tão pouco tempo para aprender (Geoffrey Chaucer)"
"Nenhuma explicação é suficiente (Karl Popper)"


Levado pelas mãos de Sálua Nazar, em meu primeiro dia de Escola, na Classe Anexa do Ginásio Escola Normal Estadual de Pitangui, início do ano de 1950, vi no meio de várias crianças e adultos um menino que se destacava dos demais pelo tamanho e andar meio desajeitado. Era Sebastião Márcio Severino, pessoa que viria a conhecer mais profundamente do que poderia imaginar naquele momento.

Pouco depois, passados os primeiros momentos de uma algazarra inicial nas filas indianas formadas no pátio, percebi que ele era o maior de todos do grupo e eu o menor. Na sala de aula as crianças de menor tamanho ocuparam as carteiras da frente, as maiores as do fundo, todos sentados em duplas. Ao meu lado a mais baixinha, Maria José da Silva, e bem atrás os mais altos: ao lado de Márcio, a Aurinha - Áurea Stela.

No recreio, primeiro intervalo, curiosos nos aproximamos uns dos outros para conversar, ver a merenda de cada um, indagar sobre interesses, nomes, preferências, qualquer coisa assim. De início, eu imaginava que estaria protegido ao lado de um companheiro bem mais forte do que os demais. Ou, pelo menos, não sendo inimigo dele. Talvez tenha sido este meu primeiro e pragmático interesse em me aproximar do Márcio. Mas a primeira grande lição que recebi foi: forma e conteúdo nem sempre se correspondem. Com o tempo, percebi meu engano: aquele grande menino seria para sempre um menino grande, incapaz de atos e gestos de mínima violência ou rebeldia.

A partir daí nos tornamos amigos inseparáveis. Confidentes, estudávamos, brincávamos e sonhávamos juntos. De vez em quando, à tarde, eu ia à casa dele, que ficava perto da Escola, para fazermos juntos os nossos deveres. Eu prestava atenção - com alguma inveja - na letra redonda e bonita que Márcio fazia, língua para fora no canto da boca, a demonstrar o esforço do ato de desenhar as primeiras letras, dedos firmes no lápis número dois. Sua mãe, Dona Carminha, sob os olhares silenciosos, atentos e curiosos de Seu Zé Ieié, preparava um mingau de fubá mimoso com pedaços de queijo para nosso lanche e nos aconselhava sobre a necessidade de estudar bastante, ler muito, procurar ter amigos sinceros, respeitar a todos. Essas conversas de mãe.

Era freqüente deixarmos de lado os cadernos e livros para ir à casa de Nego da Fonsina, vizinho de Márcio, para ouvir uma roda de viola entremeada de boa prosa. Foi lá, junto àquela gente simples e muito boa, que aprendi lições que a Escola não ensinava.

Márcio era sensível, bom filho, carinhoso com os pais, afetuoso, amoroso, gentil com os companheiros. De boa paz. Sempre disponível para ajudar. Lembro-me do dia em que uma mulher, que vendia bala puxa-puxa na porta da Escola, não apareceu para trabalhar. Márcio foi até à casa dela e verificou que estava adoentada. Pegou o tabuleiro com os doces e foi vender durante o recreio. Chamado à atenção sobre a proibição de venda, o que lhe pareceu muito injusto, dada a finalidade, desmanchou-se em lágrimas. Não entendia desses cânones. Como me parece que não entenderia pela vida afora.

Chorar copiosamente fazia parte de seu dia-a-dia. Ora o fazia com os grandes olhos negros, ora com o imenso coração, em pudico silêncio e com dor maior. Desmanchava-se em lágrimas por qualquer coisa. Mas também ria muito. Ria de tudo. Apaixonava-se por todas as meninas, fazia-lhes a corte, bolava presentes, sonhava acordado. Bastava um cumprimento em tom diferente do habitual, um pequeno sorriso, para ele me confidenciar que acabara de ficar eterna e definitivamente apaixonado. No dia seguinte contava-me os sonhos que tivera, mostrava alguns versos, um soneto, acróstico com o nome da eleita, que iria entregar para a nova amada tão logo houvesse oportunidade. Não correspondido, sofria calado até que novo amor eterno lhe sorrisse. E adaptava o acróstico. Uma vez me disse, sério e entusiasmado, que sua nova paixão tinha uma vantagem a mais: parte do nome coincidia com o do amor que fugira, tornando mais simples a adaptação do poema.

E assim seguiu a vida naqueles mágicos quatro anos de incríveis descobertas, cumplicidades e mútuos aprendizados. Após a nossa formatura ainda fomos colegas por algum tempo no Ginásio. Mas as novas companhias, o trabalho e as circunstâncias nos separaram fisicamente.

Dele tinha cada vez menos notícias. Encontramo-nos algumas poucas vezes, quando também se mudou para Belo Horizonte. Nas ocasiões em que nos víamos parecia que o tempo não havia passado. Começávamos o papo como se nossos encontros fossem diários. Um simples "oi" e a conversa fluía. Ao final, um tapinha nas costas e um "até logo". Um "logo" que poderia durar anos, uma década.

Quando tive meu primeiro filho parece-me que ele estava morando no estado de São Paulo, não me lembro bem. Soube do nascimento e me enviou um bilhete carinhoso, que guardo comigo até hoje, desejando uma vida bem feliz para o "bengalinha". Bengala era o apelido pelo qual me chamava na infância. Não sei de onde tirou isso nem jamais perguntei.

Há alguns anos me procurou. Não nos víamos há bastante tempo. Estava cansado, semblante assustado, olhar tristonho que tentava, mas não conseguia disfarçar. Falou-me um pouco de sua vida. Entremeou o relato com algumas invencionices, misturou sonhos com realidade. Nenhuma reclamação, nenhuma mágoa nem ressentimentos. Mas era evidente que estava em dificuldades.

Bastante constrangido, tentou vender-me um consórcio ou seguro ou cota de clube, sei lá. Algo assim. Era sua atividade em busca de algum dinheiro para seu sustento. Não me interessei pela oferta e com alguma cumplicidade e cautela mudamos de assunto. Falamos sobre ex-colegas da Classe Anexa: Cecília, Soninha, Zenaide, Arésio, Jésus, Aurinha, das Maria José (de Freitas e da Silva), de Dona Maria Lopes, Dona Iolanda, Seu Antônio Sambém, Dona Nhanhá, Dona Teotista, Seu Chiquinho. Pessoas queridas.

Relembramos nossos primeiros amores e paixões primárias. Contou-me sobre a vida de cada um dos nossos colegas, onde estavam, o que faziam. Para todos uma palavra carinhosa, de admiração, de amizade que talvez não privasse mais. Entremeado por longos silêncios, ficamos a lembrar de histórias, apelidos e fatos dos quais rimos muito. Mencionava nossos colegas de infância como se o tempo houvesse paralisado naqueles anos da Escola Normal. Com intimidade que não percebera já perdida.

Nada me pediu.

Num determinado momento, com muito cuidado lhe ofereci alguma ajuda, um adiantamento sobre suas vendas futuras. Agradeceu mas não quis. Insisti. Então, com os grandes olhos negros meio úmidos, cabeça ligeiramente inclinada, relutante aceitou. Perguntei qual poderia ser o valor mais adequado. Imaginei determinada quantia que julgava razoável naquele instante. Para minha surpresa sugeriu qualquer coisa dez vezes menor. Disse-lhe que poderia ceder um pouco mais e ele então me ofereceu um documento como garantia, que não aceitei. Falei que estava fazendo um depósito em confiança, como se fora num Banco qualquer. Se precisasse, avisaria com antecedência para fazer a retirada.

Tomamos um café, olhamos a cidade pela janela, falamos qualquer coisa sobre o trânsito, as pessoas, a chuva. Com muito para conversar, mas naquele momento meio sem assunto, perguntei se sabia onde poderia conseguir amoras, daquelas que colhíamos na Escola. Prometeu encontrar e trazer para mim em sua próxima visita.

Ficamos algum tempo em silêncio, muito a dizer, nada para falar. E nos despedimos tal qual na Classe Anexa, como se fôssemos nos encontrar novamente logo no dia seguinte, à hora do recreio.

Não sei que caminhos seguiu, que vida levou, o que lhe faltou, por onde andou. Nem me altera saber agora. Márcio sempre foi para mim uma referência de bom menino, bom coração, que teimosamente decidiu ampliar os muros de nossa Escola, não percebendo, talvez, que aqui fora a vida ainda não estava preparada para receber pessoas como ele.

Não nos vimos mais. Nem mais nos veremos.

Márcio, o menino grande, meio passarinho, foi antes. Muito antes. Há dois dias. E levou junto um pouco de mim.

Belo Horizonte, 21/01/2002

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