quinta-feira, 28 de julho de 2011

Reflexões - Um moço chamado Toninho - 2002

Um moço chamado Toninho

Lindolfo: mesmo com o risco de parecer piegas, faço este relato para registrar um acontecimento que presenciei há cerca de 45 anos. Expressá-lo agora não deixa de ser uma catarse para mim. Permito-me abusar do caro amigo fazendo-o meu depositário dessa "revelação". Desculpe-me: é para não ficar perdido em minha memória, cada dia mais descuidada.

O episódio ocorreu em torno do ano de 1957 - por aí - em minha Velha Serrana, Pitangui, em frente ao Ginásio Estadual Monsenhor Arthur de Oliveira.

Havia um porteiro da escola, Seu Antônio, que quase todos os alunos insistiam em chamar pelo apelido de Sambém, que ele detestava. Pessoa muito simples, bondosa, de poucas posses, muitos filhos, vivia em constantes dificuldades.

Num certo dia pela manhã, antes do início das aulas, lá pelas sete horas, ao chegar à portaria deparei-me com um tumulto. Uma roda de alunos uniformizados "à la Polícia Militar" e, no centro, Seu Antônio, o Sambém, e um padeiro da cidade que aos gritos lhe cobrava débito pelo fornecimento de pães. Parte dos alunos se divertia como o espetáculo e com a desdita - tornada pública - de Seu Antônio, o Sambém; outros, como eu, a tudo assistiam com curiosidade e certa indiferença pelo vexame público a que estava sendo exposto o infeliz devedor.

Aos gritos, alguns até incentivavam a refrega que estava por vir. Ânimos exaltados, ambos os dois protagonistas daquele espetáculo nada exemplar, discutiam com veemência, não faltando palavras nada edificantes por parte do cobrador, além de ameaças físicas contra o devedor. O clima não estava nada bom... e foi piorando. Num dado momento, porém, surgiu por entre os estudantes, um moço magro, alto, de nome Toninho. Desvencilhou-se dos colegas com ímpeto e assumiu a defesa de Seu Antônio, o Sambém, dizendo ao cobrador que não admitia que ele agisse daquela forma, humilhando o pobre devedor, principalmente diante dos alunos e em seu local de trabalho. Tão veemente e fulminante com suas palavras e argumentações, que polarizou a atenção e conquistou o apoio de toda a ruidosa platéia que, como num passe de mágica, passou então a exigir o fim do triste espetáculo aos gritos de "fora, fora" dirigidos ao cobrador impertinente, embora legítimo credor.

Depois, ainda aproveitando a emoção do momento, o moço Toninho fez uma convocação geral em prol de uma "vaquinha" para liquidar o débito de Seu Antônio, o Sambém, resgatando-o porque era devido, mas de forma civilizada.

O que esta história tem de especial? É que dela nunca me esqueci. Para mim foi uma lição, um aprendizado. Foi a primeira vez que assisti na prática o poder da palavra superar argumentos de força. E o recado de que há limites de respeito humano que devem prevalecer sobre nossas ações, por mais legítimas que possam ser.

Por anos acompanhei a trajetória do moço Toninho, através de notícias bissextas em jornais, e mais recentemente em seus artigos regulares onde, vez por outra, surge novamente aquele moço de Pitangui, bravo, insistente, inconformado com privilégios, crente na justiça, propondo corajosamente alternativas para reformas sociais, não ficando indiferente mesmo na tranqüilidade de confortos e prazeres corporativos, antes contra eles se rebelando e se indignando.

Como diria Nelson Rodrigues: mas o que mesmo eu queria lhe dizer? Por que lhe escrevo isto? Pelo inusitado da coincidência de em nosso encontro no restaurante do Minas I você ter citado um colega de turma, Advogado, Professor e Juiz, que certa vez tomara para si a defesa de interesses de garçons que estavam sendo injustiçados. Contei-lhe um caso semelhante, e... viva! tratava-se da mesma pessoa! E você me disse na ocasião: "ele sempre foi assim, meio diferente". Fiquei alegre por isso: saber que há pessoas que não abdicam de determinados princípios e têm comportamentos que não se alteram com o passar dos anos.

Confesso que cheguei a desejar que fosse outro o seu personagem, pois assim teríamos mais um com este mesmo espírito.

Compromissos com certas atitudes podem nos acompanhar pelo resto de nossas vidas e têm extraordinário valor, principalmente quando em função de nossa posição social podemos agir de modo mais efetivo para facilitar ou minorar o sofrimento de pessoas que têm pouco ou nenhum acesso aos mecanismos complexos, complicados e custosos da justiça.

Às vezes, em momentos de dúvidas e fraquezas e descrenças e desalento e desesperança, quando duvidar da justiça é o mais óbvio e natural, recorro-me ao exemplo do moço Toninho, lá da velha Pitangui, que continua mantendo uma convicção muito forte de que é possível continuar plantando por aí sementes de coragem, retidão e justiça, valorizando pessoas e não coisas, gestos e não palavras, coragem e não tibieza, ação e não retórica. E que continuar acreditando na transformação da nossa Justiça não é utopia, mas sonho realizável.

A propósito, o moço Toninho, mais precisamente Toninho do Doutor Jacinto, sempre tratou Seu Antônio, o Sambém, respeitosamente de Senhor Antônio. Pois é: o moço já era "diferente" naquela época.

Com um abraço,

Epiphânio.

Agosto/2002

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